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92% do mercado de capitais já usa IA, diz a Anbima. Só 3% medem o que ela entrega

Fotografia de um robô sentado a uma mesa de escritório, segurando três placas metálicas coloridas — uma hexagonal laranja, uma arredondada roxa e uma em forma de chama vermelha — diante de dois monitores com telas de planilha neutras; ao fundo, janelas mostram o horizonte de São Paulo; em primeiro plano, de costas, uma pessoa não identificável observa a cena.
A IA já circula entre gestoras e corretoras — mas poucas registram o que ela realmente entrega. Imagem gerada por IA — Investidor Agêntico

Pesquisa da Anbima com o Datafolha, divulgada em 11 de setembro de 2026, mostra que 92% das 177 instituições ouvidas no mercado de capitais brasileiro usam inteligência artificial. O uso se concentra em produtividade e automação interna: só 11% integram a IA a processos críticos, 3% relatam vantagem competitiva clara e 3% medem o resultado com indicadores ligados à estratégia.

Por Marina — Investidor Agêntico · publicado em · metodologia · política editorial

A Anbima divulgou em 11 de setembro de 2026 a primeira pesquisa sobre inteligência artificial no mercado de capitais brasileiro, feita com o Datafolha e a MatchIT: 92% das 177 instituições ouvidas já usam IA. O uso ainda é de bastidor, em produtividade e automação, e a régua de maturidade criada pela própria pesquisa parou em 2,7 numa escala de 1 a 5.

O que a pesquisa mediu?

O levantamento, chamado Retrato da Inteligência Artificial no Mercado de Capitais, ouviu 177 instituições entre 21 de janeiro e 6 de abril de 2026, com nível de confiança de 95%. Sete em cada dez respondentes ocupam cargo de liderança. Segundo o Valor, o universo era de 1.500 instituições associadas ou aderentes aos códigos da Anbima, e 80% da amostra são gestoras.

Além de contar quem usa, a pesquisa criou o primeiro Índice de Maturidade em IA do setor. A nota média foi 2,7, que a Anbima chama de fase de estabilização. “O índice mostra um mercado em transição entre a experimentação e a escala”, disse Marcelo Billi, superintendente de Inovação, Sustentabilidade e Educação da associação, no comunicado.

Para que as instituições usam IA hoje?

Para trabalho de escritório. Entre as empresas que usam a tecnologia, 80% citam ganho de produtividade e 75% citam automação de tarefas. Apoio à decisão e redução de risco ou erro aparecem com 57% cada.

As aplicações seguem a mesma lógica. Ciência de dados lidera, com 72%, seguida por IA generativa, com 67%, aprendizado de máquina, com 48%, e processamento de linguagem natural, com 36%. Ao Valor, Billi resumiu: “O uso de hoje é produtividade, eficiência, como eu pego esses processos repetitivos, como uso o dado de uma forma mais eficiente, como leio as coisas mais rápido.”

O dado que interessa a quem acompanha investimento agêntico está mais embaixo na lista. A categoria “sistemas autônomos com IA embarcada”, a mais próxima do que o portal chama de agente, foi citada por 21% dos respondentes, segundo o Valor. Na Escala de Autonomia do portal, o que a maioria descreve cabe em L1: a IA pesquisa, resume e propõe, e o humano decide e executa.

Usar IA é o mesmo que dominar IA?

A própria Anbima diz que não. Quase todo mundo usa, poucos integraram a IA ao que é crítico, e quase ninguém enxerga vantagem competitiva por causa dela.

EstágioParticipaçãoFonte
Usa algum tipo de IA92%Anbima
Usa em áreas-chave, com ganho de eficiência48%Anbima
Projetos isolados, com ganho pontual25%Valor
IA integrada a processos críticos11%Anbima
Vantagem competitiva clara3%Anbima

Os efeitos ligados a mudar o negócio ainda são raros. Segundo o Valor, 17% citam criação de novos produtos ou serviços, 14% citam vantagem competitiva e 6% citam mudança no modelo de negócio. A expectativa vai na direção oposta: 93% acreditam que a IA vai aumentar a eficiência interna, 90% veem potencial de diferencial competitivo e 73% enxergam chance de novos produtos.

O que falta em governança e medição?

Menos de um terço das instituições diz ter governança de dados estruturada ou avançada, e só 12% se colocam em estágio consolidado ou avançado nas políticas de uso responsável de IA. No detalhe do Valor, 52% das que usam IA têm diretrizes informais ou política ainda em elaboração.

ItemO que a pesquisa encontrouFonte
Política de uso responsável de IA52% informal ou em elaboração; 9% formal e abrangente; 3% avançadaValor
Governança de dados36% básica; 30% pontual; 24% formalizada; 5% avançada; 6% nenhumaValor
Transparência sobre o uso de IA7 em 10 sem política ou com política básicaValor
Medição de resultado43% subjetiva; 28% só em projetos específicos; 3% integrada à estratégiaAnbima e Valor

A medição é o ponto mais fraco. Entre as empresas que usam IA, 43% avaliam o resultado de forma subjetiva, sem métrica nem registro, e só 3% têm indicador corporativo ligado à estratégia. Para 61% delas há obstáculo para ampliar o uso com segurança. O principal é a necessidade de novos controles e auditorias, seguida por falta de capacitação, custo, segurança e privacidade, escassez de especialistas e falta de políticas internas.

Billi trata a governança como a condição para sair do laboratório. “A gente não pode escalar um projeto de IA sem ter todas as políticas, todo o treinamento feito e tudo definido dentro da governança”, disse ao Valor.

O que isso muda para quem investe?

No produto que chega ao cliente, por enquanto, nada. A pesquisa mede a IA que as instituições usam por dentro, para elas mesmas. Ela não mede quantas expõem um agente ao cliente, quantas deixam a IA propor operação nem quantas têm limite, log e botão de desligar. Essas perguntas são o que separa uma instituição comum de um banco agêntico, e ficaram fora do questionário.

O que a pesquisa dá é um diagnóstico do outro lado do balcão. Medir é o quinto princípio do investidor agêntico, e só 3% das instituições medem de forma sistemática. Política de uso responsável é o que define o limite dentro do qual um agente pode agir, e só 12% têm uma madura. Os 21% que dizem ter sistema que age sozinho não informam sob que regra.

Um mercado que ainda não mede o que a IA entrega internamente vai demorar para provar ao investidor o que um agente entrega na carteira dele. Quem quiser delegar etapas do investir a um agente precisa exigir do outro lado o que a pesquisa mostra que falta: governança escrita, indicador e transparência. Sem isso, o que sobra é investimento cego.

O que vem depois?

A Anbima diz que a agenda agora é ajudar as instituições, sobretudo as menores, a avançar de forma estruturada. “A nossa missão é ajudar agora os nossos associados, especialmente os menores, que não têm tanta estrutura e tanto acesso a esse tipo de tecnologia, a avançar nessa agenda”, disse Billi ao Valor.

A pesquisa integra o plano ANBIMA em Ação 2026, e o relatório completo está no site da associação. O portal vai acompanhar a próxima edição do índice para ver se a nota sai de 2,7 e, sobretudo, se o número de instituições que medem sai de 3%.

Perguntas frequentes

Quantas instituições do mercado de capitais usam inteligência artificial?

92% das 177 instituições ouvidas pela Anbima e pelo Datafolha entre 21 de janeiro e 6 de abril de 2026.

O que é o Índice de Maturidade em IA da Anbima?

Uma régua de 1 a 5 criada na pesquisa. A média do setor foi 2,7, fase que a Anbima chama de estabilização.

Quantas instituições medem o resultado da IA?

3% têm indicador corporativo ligado à estratégia. 43% avaliam o resultado de forma subjetiva, sem métrica.

A pesquisa mede agentes de IA de investimento?

Não. Ela mede o uso interno das instituições. A categoria mais próxima, sistemas autônomos com IA embarcada, foi citada por 21% dos respondentes.

O que isso muda para o investidor agêntico?

Mostra que governança escrita, indicador e transparência ainda são raros nas instituições. São exatamente as três coisas que ele precisa exigir antes de delegar qualquer etapa a um agente.